Gabriel Nascente definitivo: revisado e ampliado
Diário da Manhã
Publicado em 8 de janeiro de 2018 às 22:18 | Atualizado há 2 semanasGabriel Nascente não quer mais saber de noites de autógrafo. Já deu. Apesar disso, ele está prestes a lançar sua suma poética, a “Enchente Verbal”. Trata-se de uma compilação de todos seus poemas publicados até aqui em dezenas de livros, uma série iniciada em 1966 com “Os Gatos”.
A Kelpes deve entregar, no segundo semestre deste ano, obra em 4 volumes de mil páginas cada um com os poemas devidamente revisados – alguns até ampliados – pelo próprio poeta. É que muitos livros de Gabriel já não são mais encontrados nem em sebo. Daí a ideia da Kelpes em lançar esta compilação.
Antes disso, a Editora Ex Machina, de São Paulo, lança uma antologia de poemas nascenteanos, organizada por Iuri Pereira, abrangendo um período que vai de 1966 a 2016. Os poemas são agrupados por temática e, dentro de cada temática, por ordem cronológica.
O poeta do Bairro Popular, o filho do seu Tunico Marceneiro, anda eufórico por estar vivo e bem de saúde e cada vez mais inspirado, mas ao mesmo tempo melancólico em virtude dos rumos que a vida lá fora vai tomando. A modernidade o aborrece. As modernidades tecnológicas o enojam. Computadores, internet, celulares… para Gabriel, tudo isso é lixo.
Mas o que o desgosta mesmo é viver neste Goiás provinciano, de mentalidade feudal, onde o sucesso se mede pelo tamanho da boiada no pasto. Uma sociedade cada vez mais hostil às letras, onde livrarias vão se fechando e até os sebos – esta nunca assaz louvável instituição – também vão fechando suas portas por falta de clientela. Se o povo mal tem uns cobrinhos para o pão do corpo, que se dirá para o pão do espírito, que é livro?
É por isso que Gabriel está indo embora de Goiás. Depois de encerrada a longa entrevista que ele concedeu a este repórter, falando de sua carreira e de seus novos projetos literários, ele fala casualmente, em off the record, que pretende se mudar para Copacabana, aprazível bairro praiano do progressista município de São Sebastião do Rio de Janeiro.
“Pode pôr isso também”, me autoriza o poeta. Prestes a se aposentar do serviço público, o poeta pretende aplicar algumas de suas economias em um apartamentinho em Copacabana. Ficará mais fácil para ele comparecer às reuniões ordinárias da Academia Brasileira de Letras. Pois é certo que Gabriel acabará sendo eleito para compor aquele sodalício, podem apostar. Questão de tempo.
Aí está a entrevista de Gabriel. Gabriel nu e cru. De quebra, ele nos passa seu último poema, escrito na madrugada de 1° para 2 de janeiro. Gabriel anda sempre com um toco de lápis e um papel. Nas suas andanças pelas ruas da cidade, o que ele vai vendo vira versos instantâneos, que ele depois passa a limpo em sua velha Olivetti.
ENTREVISTA
Helvécio Cardoso – Que avaliação você faz dos seus 51 anos de poesia militante?
Gabriel Nascente – Que ainda permaneço incompleto, comendo chão, com as minhas chinelas de aprendiz. Chateado e triste, mas eufórico e positivo. Chateado porque – explico – Goiás, literariamente falando, não existe mais, acabou. O que existe são movimentos pseudoculturais, fechados, preconceituosos, elitistas e estéreis. Esta é a minha aldeia. Desde o verão daquele 23 de janeiro de 1950, quando abri meus olhos pela primeira vez para o mundo. E triste porque aquela comunicação acalorada de antigamente, entre os intelectuais, escritores e artistas, também não existe mais, O que me propicia a pensar que já estamos vivendo o início do Apocalipse, com o estrondoso advento da geração dos sem cérebros. As pessoas flagrantemente já não querem mais pensar, pois estão viciadas à praticidade alienante do automatismo tecnológico, tudo é magnético; é a síndrome universal da preguiça de pensar. A tal ponto isto me deixa estupefato, perplexo, que é como se a humanidade tivesse substituído a presença de Deus (e isto nada tem a ver com religião) pela majestosa figura do todo poderoso senhor computador. Isto me parece absolutamente ridículo. Daqui a pouco esta civilização cretina (que tudo faz para destruir o livro, a natureza, e os valores estéticos da alma) estará inventando o sêmen de líquido plástico, para pôr no mercado ginecológico. Ficção? Não. É burrice mesmo. Fruto de uma obscenidade intelectual estrondosa, sem limites.
Helvécio Cardoso – Mas você não disse a que conclusão chegou.
Gabriel Nascente: – Você, meu caro repórter, me pergunta que conclusão eu trouxe comigo, ao chegar, hoje, carregando nos ombros esta carga de 51 anos de poesia. É! Me deixa coçar um pouco as minhas ideias. Aliás, lá no começo eu disse que também estava eufórico. E estou! É verdade. Eufórico porque a vida tem sido muitíssimo generosa comigo, cá pelas alturas dos meus 67 anos; acumulando sobretudo a lucidez de uma boa maturidade, o suficiente para administrar, com serenidade, certas aparições de surpresas maléficas, decepcionantes, que saltam repentinamente do fundo da caixa de Pandora com o fito de bagunçar nossas vidas, que se esforçam cotidianamente para andar sobre os trilhos da virtude.
Helvécio Cardoso – E eufórico…
Gabriel Nascente: – Eufórico, principalmente, porque a vida bate firme, lúcida e fecunda e funda, pelos subterrâneos do meu sangue. E está aqui comigo, atiçando as labaredas do milagre. Estou vivo. É este o troféu gigante do meu bem-estar, minha alegria triunfal. A vida não se troca por outra vida, e é absolutamente única, na matéria e nos sonhos, no afã e na abulia, na pérola do pranto e no mel dos sorrisos. Partamos agora para o eufórico literário. Posso falar? E positivo porque, pela primeira vez, ao longo desta minha jornada de paixão pela poesia, estou vivendo a deleitosa oportunidade de rever toda (ou quase) a minha extensa bibliografia poética (verso por verso, estrofe por estrofe, linha por linha, poema por poema, livro por livro) desta pequena montanha de mais de quatro mil páginas de poesia, reunida em quatro volumes de mil páginas cada uma, que a intitulei de “A enchente verbal”, já com o firme propósito de lançá-la ainda no primeiro semestre deste ano.
Helvécio Cardoso – Por quê você se declara inimigo radical da civilização tecnológica, e combate ostensivamente a internet?
Gabriel Nascente: – Nem tanto. Mas, basicamente, a realidade é a seguinte: toda civilização traz, no bojo dos seus objetivos, uma multidão de coisas nocivas e prejudiciais à saúde e à natureza, à saúde mental do homem, ao equilíbrio ecológico, à natalidade dos bichos, à poesia florestal e marítima do mundo etc., etc. Por exemplo, querer substituir o livro por uma pernóstica comunicação eletrônica, de internet, é contumácia de bobo, de imbecil, de viciado. Nada neste mundo é mais salutar e dadivoso do que ver um menino com um livro na mão. Imagina você se cada pessoa, da aldeia global, tivesse, ao invés de um celular na mão, um livro, essa invenção artesanal do que homem que imortaliza o pensamento, a cultura, a filosofia, a literatura, as artes e poesia, das maiores celebridades dos continentes ocidental e oriental. Isto sim, meu companheiro, é ferramenta sadia para enfrentar a vida. Embora, em tempos atuais, tudo se faz para retirá-lo da vitrine livresca.
Helvécio Cardoso – O Brasil não tem livrarias, nem bibliotecas públicas, mas lojas de vender computador tem em cada esquina…
Gabriel Nascente: – Pois então! Em Copacabana, por exemplo, um populoso bairro com mais de três milhões de habitantes, existem hoje apenas treze livrarias, em rede comercial. Os governantes assinam documentos autorizando a dizimarem os mananciais da natureza, em troca de milionárias propinas e engorda de bois no pasto. Mandam secar rios, roubar suas águas. E depois, ironicamente, aparecem na tela de televisão, promovendo campanhas para as populações preservarem a natureza. Nas ruas, as pessoas não se confraternizam mais, estão todas com os olhos pregados na telinha do celular. Mal sabem elas que, com o uso demoníaco dessa engenhoca, instauram-se, dentro delas, a loucura e a solidão. O gostoso da vida, meu caro repórter, é a paz de espírito para se ler um bom livro. Esse hábito, de milenar origem, não pode acabar nunca. Do contrário, a humanidade vai se transformar em boiada de abate, aguardando apenas o soar das sirenes dos matadouros.
E tem mais. O virtual é uma mentira, língua sem salivas. O virtual não tem sentimento, nem o calor de um aperto de mão, nem o fogo sensual da ternura de um beijo; é mais frio que o encontro de duas lâminas na escuridão. Daí porque, diante desta parafernália robótica, eletrônica, virtual e magnética, eu me orgulho de ser um poeta manual. Adoro as minhas máquinas de escrever, meus lápis, borrachas, canivetes, e não os troco por esta ostentação burguesa que destruiu até a minha caixa-postal, onde nem mosquito entra mais. É isso daí, companheiro… Mas, lhe pergunto: “O que farei sem carregar nos ombros uma parte da esperança?”. E quer mais?
Helvécio Cardoso – Tem mais?
Gabriel Nascente: – Eu venho de uma geração em que até os cachaceiros de antigamente iam para os botecos discutir Neruda e Maiakovski. No mínimo, aquela gente era chegada à leitura de um bom livro. E falava com paixão, sobre literatura, filosofia, religião e política. E nós, naquele ambiente de boemia cervejal, de muita fumaça e batons de beleza femininas – acreditávamos na utopia. E por isso, cada um de nós tinha lá a sua torre de mentiras. Mentiras informativas, (fantasiosas), mas que criavam a razão de vivermos adentrando as perspectivas do sonho, e seus horizontes para os dias de amanhã. Fossem as fantasias que fossem, era preciso acreditar. E eu, orgulhosamente, sou fruto daquela geração de quixotes do asfalto. hoje, nada disso existe mais. O deus da humanidade chama-se internet. Ou melhor, infernet. Daí porque esta é a mais imbecil de todas as humanidades que já povoaram o invólucro terrestre.
Helvécio Cardoso – É verdade que você enfarou-se com as tradicionais noites de autógrafos, a ponto de não querer mais realizá-las?
Gabriel Nascente: – Sim, é verdade. Isso, no entanto, não quer dizer que eu feche as alegrias de minha alma, e passe a cuspir no prato em que comi; quando nos áureos tempos que lançar livro em Goiânia era um evento encorpado, garboso, de glamour. Fiz isso durante mais 40 anos. E o fiz feliz, autografando meus livros, vendendo no corpo-a-corpo os meus livros; dando vazão às emoções poéticas de minhas mensagens. Dava uma mão de obra do capeta, mas era prazeroso, a gente acreditava na importância daquelas noites de autógrafo, com coquetéis, entrevistas, chuva de fotógrafos. E a vaidade da gente subia às alturas do Olimpo liderado por Cronos e Zeus. Hoje, a luz dessas alegrias, e o conteúdo dessas emoções, saíram de cena. Dificilmente as pessoas marcam presença nessas noites literárias. O papo é outro. É a rede social da internet. Esses usuários de tecnologia magnética pensam que estão se comunicando uns com os outros. Ledo engano. Eles mesmos acabam solitários, quando saem desses canais de comunicação, sem ter com quem conversar. E ficam aflitos, neuróticos, quando longe de seus celulares. Em piscinas e restaurantes, e até mesmo durante os intermezzos das peças teatrais, lá estão ele grudados em seus aparelhos. Não sabem se comem, se nadam, ou se apreciam o enredo da peça.
Helvécio Cardoso – Qual é o seu estado de espírito emocional ao atingir o apogeu de seus 52 anos de poesia, a se completarem no dia 18 de janeiro deste ano?
Gabriel Nascente: – Nunca estive mais dentro de mim quanto agora. E com vontade de fazer poesia. Quer prova? “A palavra segue o voo do vento. Eu sigo o estalo das sementes”. E encavernado nas entranhas das minhas meditações. Pois, o que escandaliza a minha consciência não é a morte. A morte é o fim do último capítulo. Só isso. Silêncio de pedra. Nada mais. Mas o que escandaliza mesmo a minha consciência é o tempo. O tempo que Santo Agostinho tentou definir. Para mim, entanto, ele, o tempo, é o anjo carrasco da vida. Faz o que quer e ninguém (absolutamente ninguém) tem peito para condená-lo à prisão perpétua. Ah, se eu fosse o vigia da eternidade!… Não deixaria nunca o tempo entrar, porque ele bagunça tudo, esmaga até o pó.
Concernente ao meu estado de espírito, respondo: estou em paz com a minha consciência; e mais leve que asa de borboleta, fazendo o que mais amo nesta vida: poesia. E o que fiz não conta, é sopro dissolvido no ar. Estou sempre saindo do zero para uma nova empreitada de aurora. E a poesia é meu único instrumento de aproximação entre os homens. “Ferramenta divina na mão do homem”. Essa fala verbal que desembrulha o mistério das minhas emoções, criando imagens que levitam no azul das nossas ideias. E o amor – diria o grande Lord Byron – me ensina a melancolia. E ser poeta é ter esta sensação… Caramba! Estou ficando louco! Eu vou explodir”.
Helvécio Cardoso – Como é que a poesia chegou em sua vida? Foi na infância? Foi na adolescência? Como foi esta descoberta?
Gabriel Nascente: – Ih, evên pedradas! Na verdade, muito antes de bafejar meu primeiro verso, eu já era poeta. Diotima – o demônio de Sócrates – já havia solfejado o seu hálito nas têmporas das minha verve. Se bem que, quando eu trabalhava de mecânico de bicicleta numa oficina lá da Rua 24, na idade ali dos meus treze/quatorze anos, existia outro mecânico que tinha o apelido popular, de guerra, de “poeta louco”, por causa da moita de cabelos palha de aço que encobria todo o seu frontal, da testa à nuca, suscitando-lhe a imagem de loucão. Ademais, o tal “poeta louco” era de uma feiura vampiresca de doer. Mas era um cômico de mão cheia. E eu nunca soube a razão daquele cognome. Pois o próprio era um tremendo de um analfabeto; e, portanto, ele mesmo desconhecia o significado da palavra.
Helvécio Cardoso – Você foi um menino travesso ou um nerd?
Gabriel Nascente: – A precocidade das minhas travessuras, durante boa parte da infância e também da pré-adolescência, já dava sinais de como eu, inconscientemente, procurava uma janela para a minha inspiração. A inquietude espiritual da minha angústia, aguçada principalmente pela morte prematura de meu pai, aos 33 anos de idade (eu contava 8 anos, em 1958), vinha à tona de forma contundente, rebelde. Quantas vezes sonhei ser cientista, engenheiro eletrônico, diplomata, menos escritor e poeta. Isso não existia no cardápio das minhas ilusões. Até então era incogitável. Mas o fato é que, durante aquele tumultuado período da minha meninice, fui protagonista de grandes e perigosas loucuras. Impróprias, inclusive, à minha idade. Proezas de arrepiar. Uma delas, conto. Foi quando eu, em pleno horário de recreio vespertino, decidi a subir (e subi) os degraus de ferro chumbado numa coluna de concreto, que sustentava a gigantesca caixa d´água da Escola Técnica Federal de Goiás – onde cursava o ginásio industrial – e, lá em cima, no topo, empurrei a tampa ( sabe Deus como), tirei a roupa, e me joguei, pelado, às águas daquele reservatório.
Helvécio Cardoso – E deu no quê?
Gabriel Nascente: – Lá embaixo, no pátio de recreio da escola, a estudantada erguia os seus gritos de ovações – e também de vaias – ao louquinho pelado na caixa d´água; o Bié da 75, filho do seu Tunico, da marcenaria. Parece que aquela proeza minha, maluca, de se expor, nu, às 3h15 da tarde, durante o lanche da galera etefegeana, tinha, como conteúdo místico-existencial, a especulação cosmológica, para confirmar se Deus era mesmo o ápice supremo de todas as coisas e seres do universo. No mínimo, aquele adolescente intelectualmente inquieto, perturbado, dos anos 60, queria dizer alguma coisa através daquela exibição teatral, para chamar a atenção dos colegas. Deu no que deu. Fui amargamente penalizado por aquela façanha, com manchas de notas vermelhas no boletim escolar.
Helvécio Cardoso – Mas, Gabriel, você não conclui a resposta sobre o tema “noite de autógrafo”.
Gabriel Nascente: – Eu gostaria, então, de pedir permissão ao valoroso amigo e repórter do Diário da Manhã, para concluir o que penso hoje sobre esta questão de convidar o público para noite de autógrafo. O único retorno que se colhe desse evento, dentro de uma sociedade inteiramente dominada pelo computador, é a ressaca daquilo que não se leva a nada. Primeiro, porque não somos gênios sobrenaturais, nem fenômenos do futebol, tampouco celebridades da música sertaneja, para abarrotarem seus palcos e ambientes com multidões de fãs, que se retumbam no delírio das massas. Depois, é loucura disparatada correr atrás de quem gosta de poesia nos dias de hoje. Isso não passa de exibicionismo individual nosso, farra de vaidade pessoal, pegando carona com os holofotes da imprensa. E custa caro, muito caro, além de dar uma mão de obra do capeta, para depois afundarmos no mais cruel ostracismo. Porque a sociedade brasileira, como um todo, é cruel e individualista, materialista, consumista. E nós somos esta sociedade. Queremos é dinheiro, fama, e não cultura, poesia. O que me provoca a disparar contra os ouvidos dessa mesma sociedade é a seguinte pergunta: “Acaso eu – GN – não vivo numa sociedade anti livresca e anti literária”? Goiás, meu amigo, é a terra do boi gordo no pasto, às fartas. As universidades são elitistas. E nossos representantes políticos, de todo o país (de todo o país) são uns venais, leiloeiros, filhos da puta. Então, diante de tão esmagadora realidade, o que sobrou para nós, operários iludidos das letras, é morrermos de porta em porta, vendendo nossos livros, no corpo a corpo. Parar de escrever? Nanja, jamais!
Helvécio Cardoso – Então não haverá mais noites de autógrafos de Gabriel Nascente?
Gabriel Nascente: – Só para se ter uma ideia sobre o quanto eu me esvaziei por dentro com relação a essa questão de lançamento de livros, lhe afirmo que, neste exato momento, estou vivendo o trauma da seguinte opção: devo ou não apresentar ao público, à crítica e à imprensa (l966-2017) a minha nova Antologia Poética? Acaba de sair do forno, pela Ex Machina, São Paulo, numa edição muitíssimo bem trabalhada, belíssima, e de requintado bom gosto, principalmente no que se refere ao critério de escolha dos poemas adotado pelo antólogo Iuri Pereira, que optou por agrupá-los dentro de um universo de similaridades temáticas; isento, portanto, de qualquer interferência do autor. Trabalho de fôlego hercúleo, que teve que enfrentar, mergulhando na leitura das quase mil páginas de poesia, desde “Os gatos”, de 1966, com o assessoramento editorial de Bruno Costa.
“Nunca estive mais dentro de mim quanto agora. E com vontade de fazer poesia. Quer prova? ‘A palavra segue o voo do vento. Eu sigo o estalo das sementes’” “Eu venho de uma geração em que até os cachaceiros de antigamente iam para os botecos discutir Neruda e Maiakovski. No mínimo, aquela gente era chegada à leitura de um bom livro. E falava com paixão, sobre literatura, filosofia, religião e política. E nós, naquele ambiente de boemia cervejal, de muita fumaça e batons de beleza femininas – acreditávamos na utopia”
Abrindo as janelas para 2018
O ANO NOVO JÁ SE DESPENCA DA ROLHA DE CHAMPANHE
Gabriel Nascente
Fui subindo os degraus do amanhecer
com este verso na cabeça:: a alma
da poesia incandesce o meu verbo.
E vi o sol bater de cabeça no chão.
Cristo era um homem alto,
de face doce e severa.
E tinha, nos olhos,
uma cor de vinho.
Mas o flanco de Cristo
foi rasgado pela lança
de Longino,
o centurião.
Por que me lembro disso agora,
se nesse natal, eu apertei a mão dos
bêbados e lhes ofereci pão com sardinha?
Mas me leembrei também da vida suja dos
presidiários; e do velho cebo barbaçudo
lá do Mercado da Vila Nova. E da mão de Homero
depois que o dia amanheceu “recamado de ouro”.
Fui subindo enquanto a aurora descia,
no sonolento ar de ressaca dos homens.
Pedaços de papel voavam da boca
das sargetas.
“A religião não é o
ópio, é a poesia da
humanidade”,
fui subindo
até a banca de jornais,
onde encontrei o “glutão beberrento”.
Ele levava uma tradução de Maiakóvski
debaixo do braço. “Feliz Ano
Novo, gente boa!”, trovejei-lhe
esta sonora saudação ( que ecoou
vazia, sem calor cristão).
Fiz que não senti. Segui,
e vi monte de trapos na calçada
misturados a bagaços de mangas
e moscas. ( E os mendigos destroçados
pelos porres de suas misérias, ali
tresnoitados…)
Ó vida minha,
fôlego de fósforo,
vem,
vamos nos prover de utopias!
É disso que preecisamos.
A poesia me sobeja.
Sinos bimbalham em meu peito.
As almas não se entendem.
E as nuvens dos horizontes
são mentirosas.
Luz que afla, que bagunça!
Todos cobiçam montanhas de dinheiro.
E já não sei se será uma boa mandar
embora este enxame de sonhos,
(que me atordoa tenazmente).
Sei apenas
que a mão que escreve
carrega sonhos
E que eu preciso urgentemente escapar-me
desse celibato literário
que me faz cuspir na eternidade,
dessa selva de palavras
que urram em meu sangue,
desses entardeceres
que me enlouquecem,
desses sonhares caudalosos
que não me levam a nada,
e, sobretudo, meus amigos,
dessa lucidez que sibila
me enchendo de melancolia.
( É primeiro de janeiro e eu
estou muito longe de ser eu mesmo).
Tenho sede, medo de mim.
O sol está frio. E ninguém
me vê.
(1° e 2 de janeiro de 2018
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